Costumo achar meu trabalho o melhor do mundo, afinal é assim que eu sou recebida todas as manhãs.
Mas tem dia...tem dia.... que eu me pergunto o que exatamente eu estou fazendo nesse mundo.
Hoje conheci Verônica, mãe de 7, viúva, cuja casa caiu. Ela me pediu carona para deixar 3 dos filhos dela em um orfanato. As freiras não aceitaram nenhuma das crianças alegando que elas tinham que ser órfãs por parte de mãe. As crianças estão doentes e moscas voavam no rosto delas enquanto conversávamos com a freira. Saímos de lá com 10 quilos de alimentos e a promessa de que ela poderá buscar mais no próximo mês. E eu tive que voltar para Carrupéia com ela e os filhos e levá-la para a casa que ela está morando de favor. Tipo assim, que trabalho é esse? Eu queria levar as crianças pra minha casa, eu queria dar banho nelas, eu queria arrumar uma casa para elas, eu queria....mas depois de alguns anos trabalhando com a pobreza eu sei que nada disso vai mudar a realidade delas. E o que vai mudar? É um processo e pode demorar anos.
E quantos outros estão ali em situações semelhantes? Lembro do Cesinha pregando sobre quem é meu próximo. O próximo é quem está próximo. Então amanhã eu e minha próxima Verônica vamos levar as crianças no hospital. E depois? Depois, não sei. E eu não sei aonde colocar essa dor e aonde colocar a dor de às vezes não sentir dor.
Então divido um pouco aqui com vocês, meus amigos do blog.
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013
sexta-feira, 18 de janeiro de 2013
Pessoas que eu admiro
Em qualquer parte do mundo, apesar de todo sofrimento e dor, encontramos pessoas admiráveis. Aqui em Moçambique tem sido assim. Existem os desconhecidos admiráveis com os quais cruzo nas ruas todos os dias e outros conhecidos que tem passado pela minha vida deixando um rastro de felicidade e esperança. Com prazer, quero apresentar alguns deles.
Ms.Dancy, professora do João na única escola internacional cristã que temos aqui. Só de trabalho na área do ensino ela tem 47 anos. Hoje, por volta dos 70 anos, ela é responsável por uma sala com 11 alunos em idade pré escolar.
Meus alunos do curso de formação de professores de educação infantil. Muitos vieram de cidades distantes para participar do curso e melhorar sua atuação como professores. Três das alunas estavam acompanhadas dos seus bebês durante todas as aulas, sendo um deles de apenas um mês.
Patrícia e Leonie, duas jovens alemãs que vieram trabalhar como voluntárias através de um programa americano. As duas estão indo embora na próxima semana e com apenas 6 meses aqui já falam português. Elas moraram com famílias moçambicanas vivendo e comendo com eles em todo tempo na maior alegria e disposição.
Família linda que eu amo. Serviram aqui em Moçambique por quase 4 anos e agora estão voltando para o Brasil para uma nova etapa, com novos desafios. Vão deixar muitas saudades.
Ficou inspirad@? Eu fiquei : )
Uns vão outros ficam, mas o trabalho por aqui continua!
Ms.Dancy, professora do João na única escola internacional cristã que temos aqui. Só de trabalho na área do ensino ela tem 47 anos. Hoje, por volta dos 70 anos, ela é responsável por uma sala com 11 alunos em idade pré escolar.
Meus alunos do curso de formação de professores de educação infantil. Muitos vieram de cidades distantes para participar do curso e melhorar sua atuação como professores. Três das alunas estavam acompanhadas dos seus bebês durante todas as aulas, sendo um deles de apenas um mês.
Patrícia e Leonie, duas jovens alemãs que vieram trabalhar como voluntárias através de um programa americano. As duas estão indo embora na próxima semana e com apenas 6 meses aqui já falam português. Elas moraram com famílias moçambicanas vivendo e comendo com eles em todo tempo na maior alegria e disposição.
Família linda que eu amo. Serviram aqui em Moçambique por quase 4 anos e agora estão voltando para o Brasil para uma nova etapa, com novos desafios. Vão deixar muitas saudades.
Ficou inspirad@? Eu fiquei : )
Uns vão outros ficam, mas o trabalho por aqui continua!
segunda-feira, 10 de dezembro de 2012
Línguas de chuva
Na língua macua as primeiras chuvas são chamadas de "aparição de Deus", dada a sua importância depois de um longo período de seca. Aqui no norte a "aparição" se dá mais ou menos a partir da segunda quinzena de novembro continuando até meados de janeiro. É nessa época que as pessoas fazem o plantio do milho branco (base da alimentação daqui), já que o milho precisa de muita água para se desenvolver bem. Acontece que nesse ano Deus "apareceu" por aqui e depois foi aparecer por outras bandas. Tivemos algumas chuvas logo no começo de novembro e depois.....nada.
Passamos então a enfrentar a época mais seca desde que nos mudamos pra cá em junho de 2010. O poço apesar de ter sido novamente "afundado" não conseguiu produzir quase nada de água. A solução era comprar água de 3 em 3 dias na central de água daqui (FIPAG). Nos últimos tempos a necessidade era tanta que para conseguir 2000 litros tínhamos que passar umas 6 horas na fila. Nós temos condições financeiras de comprar água, e a maioria das pessoas que vivem aqui? Muitos caminhavam longas distâncias para poder encher seus galões de 25 litros, sempre transportados na cabeça. Era muito comum ouvirmos o seguinte diálogo:
- Como vai a saúde lá em casa?
- Estamos bem, mas iiiiiiiihhhhhhhhh, muito sofrimento de água.
Sofrimento de água. E ao perguntar para as pessoas porque não chovia a resposta era: Deus está nos castigando, ou os feiticeiros não deixam chover porque os meninos ainda estão no mato. Isso significa que ainda havia muitos meninos participando do ritual de iniciação masculino (masoma) aonde eles são circuncidados e ficam cerca de 1 mês para curarem e voltarem para casa.
Nesse ano resolvemos fazer o masoma lá no CECORE com 23 meninos. Decidimos assim porque além das questões espirituais e de saúde envolvidas, no mato, as crianças costumam apanhar, ser humilhadas e ofendidas no ritual tradicional (pra ver se vira homem). Os meninos estão lá no CECORE, nas salas recém construídas. Só saem para ir ao banheiro e mesmo assim por um corredor de palha, pois nós mulheres não podemos vê-los.
São um pouco mais de três da manhã e eu tive que levantar para escrever esse texto. Sabe porque? Acaba de chover. A empolgação era tanta que não consegui voltar a dormir. Chuva, em macua é epula, só separada da palavra nariz por um h (ephula). Aqui a chuva não cai, ela dorme (orupa). Acho que então vou dormir também.
Hoje para mim as palavras de Davi têm novo significado:
"Como suspira a corça pelas correntes das águas, assim, por ti, ó Deus, suspira a minha alma."
Passamos então a enfrentar a época mais seca desde que nos mudamos pra cá em junho de 2010. O poço apesar de ter sido novamente "afundado" não conseguiu produzir quase nada de água. A solução era comprar água de 3 em 3 dias na central de água daqui (FIPAG). Nos últimos tempos a necessidade era tanta que para conseguir 2000 litros tínhamos que passar umas 6 horas na fila. Nós temos condições financeiras de comprar água, e a maioria das pessoas que vivem aqui? Muitos caminhavam longas distâncias para poder encher seus galões de 25 litros, sempre transportados na cabeça. Era muito comum ouvirmos o seguinte diálogo:
- Como vai a saúde lá em casa?
- Estamos bem, mas iiiiiiiihhhhhhhhh, muito sofrimento de água.
Sofrimento de água. E ao perguntar para as pessoas porque não chovia a resposta era: Deus está nos castigando, ou os feiticeiros não deixam chover porque os meninos ainda estão no mato. Isso significa que ainda havia muitos meninos participando do ritual de iniciação masculino (masoma) aonde eles são circuncidados e ficam cerca de 1 mês para curarem e voltarem para casa.
Nesse ano resolvemos fazer o masoma lá no CECORE com 23 meninos. Decidimos assim porque além das questões espirituais e de saúde envolvidas, no mato, as crianças costumam apanhar, ser humilhadas e ofendidas no ritual tradicional (pra ver se vira homem). Os meninos estão lá no CECORE, nas salas recém construídas. Só saem para ir ao banheiro e mesmo assim por um corredor de palha, pois nós mulheres não podemos vê-los.
São um pouco mais de três da manhã e eu tive que levantar para escrever esse texto. Sabe porque? Acaba de chover. A empolgação era tanta que não consegui voltar a dormir. Chuva, em macua é epula, só separada da palavra nariz por um h (ephula). Aqui a chuva não cai, ela dorme (orupa). Acho que então vou dormir também.
Hoje para mim as palavras de Davi têm novo significado:
"Como suspira a corça pelas correntes das águas, assim, por ti, ó Deus, suspira a minha alma."
sábado, 20 de outubro de 2012
Caju e outras delícias
Quem visita a província de Nampula tem o privilégio de ver cajueiros espalhados por todo canto. E agora chegou a época de saborear essa fruta exótica (em breve... época de manga!) que pode ser comida no pé ou ser transformada em suco ou doce. Junto com a fruta...a castanha. Aaaah, a castanha......! Tudo muito bom.
Pra ficar melhor ainda, o tempo que tivemos aqui com a equipe do Brasil foi delicioso. Tempo de renovo, tempo de paz, tempo de dar e receber. Fica a saudade, mas a forte certeza de que essa viagem mudou a vida de muita gente.
A equipe desenvolveu trabalhos com crianças na área de esporte, saúde e ensino. Visitaram vários lugares na traseira do caminhão levando sorrisos e palavras de amor.
Seguem algumas fotos para quem não tem face (o face está lotado de fotos) e no final, a prometida receita.
Beringela Light
3 beringelas
500 gr de castanha de caju
1 dente de alho
Azeite e sal a gosto
Partir as beringelas em rodelas e polvilhar sal por cima. Deixar descansar 15 minutos. Depois apertar as fatias com um pano para tirar o excesso de sal e água da beringela (isso é para não amargar). Partir as rodelas em tiras e misturar com o alho socado, sal, azeite e castanhas. Assar até a castanha ficar dourada. Quem gostar pode acrescentar uva passa, azeitona, pimentão vermelho e amarelo e por aí vai! Bom apetite!
Pra ficar melhor ainda, o tempo que tivemos aqui com a equipe do Brasil foi delicioso. Tempo de renovo, tempo de paz, tempo de dar e receber. Fica a saudade, mas a forte certeza de que essa viagem mudou a vida de muita gente.
A equipe desenvolveu trabalhos com crianças na área de esporte, saúde e ensino. Visitaram vários lugares na traseira do caminhão levando sorrisos e palavras de amor.
Seguem algumas fotos para quem não tem face (o face está lotado de fotos) e no final, a prometida receita.
Beringela Light
3 beringelas
500 gr de castanha de caju
1 dente de alho
Azeite e sal a gosto
Partir as beringelas em rodelas e polvilhar sal por cima. Deixar descansar 15 minutos. Depois apertar as fatias com um pano para tirar o excesso de sal e água da beringela (isso é para não amargar). Partir as rodelas em tiras e misturar com o alho socado, sal, azeite e castanhas. Assar até a castanha ficar dourada. Quem gostar pode acrescentar uva passa, azeitona, pimentão vermelho e amarelo e por aí vai! Bom apetite!
quinta-feira, 4 de outubro de 2012
Chegadas
E o caminhão chegou!!! Depois de exatos 30 dias em Maputo, meu marido voltou pra Nampula. Que saudade! Aproveito para agradecer ao nosso amigo Marcelo que esteve em Maputo com ele durante toda a saga para conseguir os documentos. Muito estresse, mas muitos casos para contar também.
Poucos dias antes deles, chegaram também a família do Luciney, Lau e Rodrigo e Elisângela Mateus. Elisângela veio para passar apenas 15 dias, mas Lau e Rodrigo vieram para colorir ainda mais nossa equipe.
Nessa foto, a Elisângela está com o grupo de mulheres artesãs que tem produzido lindos trabalhos com capulanas. A outra Eliz tem liderado esse grupo que se encontra às quartas feiras.
Amanhã chegam mais 19 pessoas, um grupo de jovens da nossa igreja trazidos por Marcelo e Ceres. Estamos na expectativa da chegada deles, que não trabalharão só em Nampula, mas também em outras duas cidades aqui perto, Nacavala e Chocas.
Aqui começou a época do caju. Muito caju. No próximo post vou falar um pouco sobre como é preparada a castanha de cajú e passar para vocês uma deliciosa receita com a castanha.
Abraços e até lá!
sexta-feira, 24 de agosto de 2012
Voltando
Depois de algum tempo sem escrever, cá estou novamente. Com meu pai e minha mãe aqui só tava dando tempo pra tomar cafezin, bater papin e tirar água do poço (né pai?). Isso mesmo, papai e mamãe estiveram aqui, além da ilustre amiga Amanda e dos queridos Otávio e Fabiana. Todos além de trazerem goiabada e café nos proporcionaram momentos de muita alegria.
Mês de julho foi mês de formatura, ou graduação como dizem aqui. Formamos mais uma professora de nossa escolinha no curso do PEPE (Programa de Educação Pré Escolar). Esperança formou e logo logo foi mamãe pela terceira vez. Fui visitá-la em sua casa no dia do parto e ela estava deitada; me falou que ainda não era a hora. À noite a mãe dela e uma tia fizeram o parto de um saudável menino, em casa mesmo.
Aos poucos, com a ajuda dos próprios corredores, estamos terminando o puarô e as salas do CECORE. Nessa semana começamos também os vestiários.
Para construção estamos sempre precisando de transporte de areia, madeira, etc e aqui por diversos motivos é difícil achar transporte de qualidade em um preço acessível. Conseguimos então um empréstimo para comprarmos um caminhão para o CECORE. Como na África do Sul os carros são mais baratos e melhores, Cesinha esteve lá ontem e conseguiu um bom caminhão a um bom preço. Agora só faltam os documentos para sermos caminhoneiros oficiais! Em breve, foto do caminhão.
Mês de julho foi mês de formatura, ou graduação como dizem aqui. Formamos mais uma professora de nossa escolinha no curso do PEPE (Programa de Educação Pré Escolar). Esperança formou e logo logo foi mamãe pela terceira vez. Fui visitá-la em sua casa no dia do parto e ela estava deitada; me falou que ainda não era a hora. À noite a mãe dela e uma tia fizeram o parto de um saudável menino, em casa mesmo.
Aos poucos, com a ajuda dos próprios corredores, estamos terminando o puarô e as salas do CECORE. Nessa semana começamos também os vestiários.
Para construção estamos sempre precisando de transporte de areia, madeira, etc e aqui por diversos motivos é difícil achar transporte de qualidade em um preço acessível. Conseguimos então um empréstimo para comprarmos um caminhão para o CECORE. Como na África do Sul os carros são mais baratos e melhores, Cesinha esteve lá ontem e conseguiu um bom caminhão a um bom preço. Agora só faltam os documentos para sermos caminhoneiros oficiais! Em breve, foto do caminhão.
Esperança com seu diploma e eu com minha parceira Amanda
quinta-feira, 7 de junho de 2012
Minha segunda data favorita
Definitivamente é 1 de junho, só perde para o Natal. Aqui em Moçambique, no famoso dia 1 de junho as crianças cantam e dançam pelas ruas, desfilando suas roupas novas. É festa pra todo lado. O auge da festa é partir e comer o bolo. Uma espécie de parabéns para você para todas as crianças. Muito útil quando a maioria não sabe seu aniversário, né? Anivérsário coletivo : )
Lá na Carrupéia não foi diferente. Brincadeiras, pinturas de rosto, teatro e comida boa (e bolo, claro). As crianças estavam fofas em suas roupinhas novas combinando.
No outro dia... festa com os corredores!
A semana que antecedeu a festa foi muito corrida. Recebemos a doce visita de nossa amiga Eve, criadora do projeto Arte que Salva. Eve faz trabalhos de pintura com crianças ao redor do mundo e depois contacta famosos artistas plásticos para finalizar os quadros. Toda renda das vendas dos quadros é revertida para o projeto em que as crianças estão sendo atendidas. A primeira edição do projeto aconteceu no Haiti e agora tivemos o prazer de participar. Obrigada Eve! Você deixou saudades.
Lá na Carrupéia não foi diferente. Brincadeiras, pinturas de rosto, teatro e comida boa (e bolo, claro). As crianças estavam fofas em suas roupinhas novas combinando.
No outro dia... festa com os corredores!
A semana que antecedeu a festa foi muito corrida. Recebemos a doce visita de nossa amiga Eve, criadora do projeto Arte que Salva. Eve faz trabalhos de pintura com crianças ao redor do mundo e depois contacta famosos artistas plásticos para finalizar os quadros. Toda renda das vendas dos quadros é revertida para o projeto em que as crianças estão sendo atendidas. A primeira edição do projeto aconteceu no Haiti e agora tivemos o prazer de participar. Obrigada Eve! Você deixou saudades.
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